Parênteses
(...) Ninguém pensa senão em mulheres e homens, a totalidade do dia é um trâmite que se detém num dado momento para permitir pensar neles, o propósito da cessação do trabalho ou do estudo não é senão começar a pensar neles, mesmo quando estamos com eles pensamos neles, pelo menos eu. (...) A actividade produtiva, a que proporciona dinheiro e segurança e apreço e nos permite viver, a que faz com que uma cidade ou um país andem e estejam organizados. A que depois nos permite dedicarmo-nos a pensar neles com toda a intensidade. (...) O parênteses é isso, e não o contrário. Tudo o que se faz, tudo o que se pensa, tudo o resto que se pensa e maquina é um meio de pensar neles. Mesmo as guerras são travadas para poder voltar a pensar, para renovar esse pensamento fixo dos nossos homens e das nossas mulheres, naqueles que já foram nossos ou poderiam ser, naqueles que já conhecemos e naqueles que nunca chegaremos a conhecer, naqueles que foram jovens e naqueles que hão-de sê-lo, naqueles que já estiveram nas nossas camas e naqueles que nunca passarão por elas. (...)
(...) Talvez Cromer-Blake tenha razão, pelo menos em parte: talvez o mais pernicioso de tudo, e além do mais impossível, seja não pensar em mulheres ou, no seu caso, em homens, numa mulher, como se houvesses uma parte do nosso cérebro que apenas se possa ocupar com essa espécie de pensamentos que as outras partes recusam e provavelmente desprezam, mas sem os quais também elas não podem funcionar fertilmente, devidamente. Como se não pensar em alguém (ainda que esse alguém sejam muitos) impedisse de pensar no que quer que seja. (...)
Javier Marías, Todas as Almas (Dom Quixote)
Para um querido amigo
(...) Talvez Cromer-Blake tenha razão, pelo menos em parte: talvez o mais pernicioso de tudo, e além do mais impossível, seja não pensar em mulheres ou, no seu caso, em homens, numa mulher, como se houvesses uma parte do nosso cérebro que apenas se possa ocupar com essa espécie de pensamentos que as outras partes recusam e provavelmente desprezam, mas sem os quais também elas não podem funcionar fertilmente, devidamente. Como se não pensar em alguém (ainda que esse alguém sejam muitos) impedisse de pensar no que quer que seja. (...)
Javier Marías, Todas as Almas (Dom Quixote)
Para um querido amigo
4 Comments:
és um tarated, um cromer-blake, incrivel como não pensas em mai nada e, birgula, sujeitas os amigos a conversas manipuladas durantes meses, em torno, e de nomeada, de assuntos sujeitos em antes da variação temática, sempre amarrados, como pirraça, no tema dela, ela, ela, ela. Safa....
sou um manipulador, em torno, e de nomeada, como toda a gente sabe.
...e de todas as passagens fabulosas desse livro, tinhas logo que escolher essa, livra!
haverá alguns a quem essa passará despercebida, como toda a gente sabe, claro.
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