O ano de Itália
Não me recordo de ter festejado nenhuma atribuição de Óscar como se fosse um golo. Aconteceu ontem, ao anunciarem Martin Scorsese como vencedor da melhor realização (e poucos minutos depois, no 2-0, ao premiarem The Departed como melhor filme do ano). Verdade que Entre Inimigos não é dos meus predilectos na obra de Scorsese. Taxi Driver, Goodfellas ou Casino são as principais razões para ter saltado. Ou mesmo os documentários sobre o cinema americano e italiano que vi recentemente e sobre os quais escrevi. Mas pouco importa que tenha sido por este. Scorsese é dos quatro ou cinco realizadores vivos que mais admiro. Cinéfilo inveterado e autor de uma obra vasta donde emergem personagens inesquecíveis. O reconhecimento da Academia só peca por chegar tarde.
Como chegou tarde o Óscar de carreira a Ennio Morricone, compositor que assinou para cima de 500 bandas sonoras e tem esse mérito raro de erguer a sua música a memória máxima de alguns filmes (que sobrevive depois, autonomamente, como partitura esplêndida). Como o próprio explicou, "o compositor deve encontrar no filme uma dignidade que vá além do filme". Na cerimónia, ao agradecer o prémio, desatou a falar em italiano, marimbando-se para o desconcerto na plateia. Ti ringrazio anche io.
Numa noite em que perdeu Babel (e ainda bem), satisfação ainda pelo Óscar de melhor estrangeiro para As Vidas dos Outros, de Florian Henckel von Donnersmarck, filme exemplar sobre os mecanismos da Stasi na antiga RDA.